segunda-feira, 28 de setembro de 2009

CRÔNICAS DE UM FAVELADO - INFÂNCIA NA MARÉ - PARTE II

Nos rostos das crianças desnutridas, quase sempre nuas ou seminuas, à porta ou à janela de seus barracos, se revelava a face apavorante da miséria e da pobreza que deforma os corpos e corrói a dignidade do ser humano; nos olhares resignados dos adultos, a sombra da indignação. E ainda assim era possível ver aqui e ali um sorriso humilde ao avistar um desconhecido que em sua sinceridade e inocência irradiava uma luz sobre humana que não existem palavras no vocabulário do homem que possam descrever a magnitude de tal beleza.



Donas Marias, Seus Josés, Seus Pedros, Donas Joanas e tantas outras donas e donos compunham o universo adulto que, nas minhas imagens de criança, parecia formar uma grande família, que se saudava e se cumprimentava a cada encontro como se se conhecessem há milênios.

- Oi Dona Joana! Como vai?
- Dá lembrança pra fulano, D. Maria!


E foi testemunhando a força desses lutadores que construíram grande parte da história arquitetônica da cidade maravilhosa trabalhando como obreiros na construção de prédios, pontes, estradas e monumentos; servindo aqui e ali em casas de famílias, bares e restaurantes, que cresci aprendendo a andar e correr sem medo por essas pontes e becos, descobrindo em minha adolescência outras nuances, outras facetas daquele universo rico e dinâmico que na verdade era e ainda é a síntese da nossa cultura.



Foi na esperança estampada nos olhos desses atores sociais que diariamente repetiam a mesma rotina estafante de coletivos e trens lotados indo ainda de madrugada para o trabalho e voltando para casa exaustos no entardecer quase à noitinha, que vislumbrei a possibilidade de mudança e transformação social que hoje impulsiona o meu trabalho de afirmação de nossa identidade e cidadania.


Na satisfação revelada no rosto sofrido, e tão prematuramente envelhecido pela lida, aprendi o valor do dever cumprido. Na importância do humilde sustento oferecido à família através de muita luta é fé num futuro melhor aprendi a valorizar a grandeza do trabalho, enquanto os irritantes auto falantes da Sede, como era conhecida a associação de moradores da Baixa do Sapateiro tocavam, por intermináveis horas: “Ô, Ô, Ô Brasil gente pra frente construindo essa nação, com trabalho permanente, com firmeza e coraçãoãoãoão... É um país que canta, trabalha e se agiganta, é o Brasil do nosso amorrrrrrr...” promovendo o orgulho a uma Pátria Mãe Gentil que nos negava, e infelizmente ainda nos nega, o direito à cidadania plena.


2 comentários:

  1. sua histórialembrou-me muito a de Vik Muniz sobre os meninos de açucar http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/discovirtual/aulas/1969/imagens/meninos_de_acucar_muniz,_1996.jpg

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  2. se ouve mais palavras de conformação com a falta de respeito que indignação. Assim sempre escuto quando ando de ônibus extremamentelotado. Não sei o que pensar, muitos aindam conservam bom humor diante de tamanho absurdo.

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