terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A GRANDE DAMA DA DANÇA BRASILEIRA

Helenita Pabst de Sá Earp não dançava apenas, se divertia intensamente e com uma facilidade surpreendente. Mas não se divertia a revelia de nada, seguia uma intuição técnico-expressiva única administrada por uma personalidade ímpar; inovadora no seu tempo, pioneira no seu campo de atuação.


Helenita é um desses anjos que a vida coloca no nosso caminho e que começam a dar sentido a nossa vida.
Ainda que a vida nos faça seguir outros caminhos, a presença daquela doce presença segue nossos passos lentamente mostrando a grandeza de ser e de acrescentar, de ampliar e de orientar, de educar para a vida e lapidar para arte.

Meu encontro com ela foi mágico. Amor artístico à primeira vista.
Helenita aos setenta anos esbanjava jovialidade. Técnica e Arte se harmonizavam num corpo experiente, forte e expressivo. O tempo parecia sucumbir frente ao talento e à aptidão para o movimento daquela Dama da Dança Brasileira.

O meio acadêmico se curvava reverente, e o meio “artístico” ignorava negligentemente a força, o valor e a importância da contribuição dada por ela ao ensino da Dança e particularmente à filosofia da dança no processo educacional.

Confesso não entender até hoje a ausência de seu nome nas principais bibliografias e referências que compõem os alicerces da Dança Brasileira, mas quando percebo as conveniências políticas e as “invejas” que habitam o “metier” da provinciana dança brasileira, entendo a incapacidade de alguns em perceber, valorizar e exaltar o trabalho de um dos maiores ícones da Dança em nosso país. 

Sei que ainda será resgatada de forma sublime, ética e coerente toda a trajetória sócio-educacional e artística dessa que sem dúvida é uma das grandes damas da dança brasileira, ainda que desconhecida do grande público e o que é pior, dos jovens profissionais da dança.

Difícil esquecer as esclarecedoras primeiras aulas que tive com Helenita Sá Earp. Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Helenita se recusava a se aposentar e para sorte minha, tive o privilégio e o grande prazer de merecê-la como educadora nos meus primeiros contatos com a dança.

“Todo mundo é capaz de se mexer, mas nem todo mundo é capaz de dançar”. Essa foi a primeira grande abertura de consciência que me foi presenteada por Helenita.

Sua capacidade singular de filosofar através das analogias para explicar o movimento e seus princípios era hipnótica. A disciplina e o respeito à força e ao valor do processo educacional eram talvez o grande tempero que somado à sua infinita sensibilidade para o movimento e para a arte a tornavam uma mulher/educadora realmente especial.


As grandes preocupações de Helenita com seu aluno eram com certeza, filosófico-artísticas na formação do ator social; e é importante destacar aqui, que apesar de ela ser naquela ocasião, professora do Grupo de iniciação à Dança da UFRJ com aproximadamente 20 bolsistas e do qual eu fazia parte, Helenita me dava aulas extras três vezes por semana num horário em que felizmente somente eu estava com ela.

Nossa forte ligação já tinha se estabelecido, talvez, desde o primeiro instante; e a cada novo encontro, nossos laços de afinidade se fortaleciam. 

Helenita foi sem dúvida a grande responsável pelo desabrochar da minha auto-estima. Vindo da Maré, uma das mais pobres e complexas comunidades de baixa renda do nosso país, por mais que tivesse a potencialidade artística e o talento para o movimento, era necessário um grande escultor para aparar as arestas, lapidar a forma e revelar o artista inerente em mim. E esse papel ela desempenhou com perfeita maestria.


 Dela mereci estímulos e comparações que hoje me orgulham, mas que na ocasião me eram apenas intuitivamente positivos tendo em vista a verdade inerente no tom de suas palavras e na sinceridade vislumbrada em seus olhos: - “Diógenes! Já vi grandes bailarinos dançando, mas poucos me impressionaram. Dois não esquecerei jamais: José Limón, que tive a oportunidade de ver dançar em uma turnê que fiz com o Grupo Dança da UFRJ por 27 universidades americanas, ele era fantástico no palco, uma pantera; e você!”. - “Eu Helenita!?” – “Sim Diógenes. Você é um grande bailarino, por que você entra com facilidade no plano do movimento. Mas preciso te dizer uma coisa. O maior obstáculo a vencer por um grande bailarino é a vaidade. Saiba dosar a vaidade necessária ao bailarino para o palco e a bani-la de sua vida cotidiana. Seja humilde sempre e dance no palco de uma escolinha do interior com a mesma força que dançarias se estivesses no palco do Teatro Municipal”. Obrigado Helenita! 

Ali começava uma das mais deliciosas e enriquecedoras relações da minha vida. A cada desejado encontro, novas descobertas sobre mim mesmo e novas orientações sobre filosofia da arte. 

Helenita aplicava em mim doses maciças de estímulos artísticos e tinha uma capacidade tão grande de me fazer perceber as potencialidades do meu talento para a expressividade do movimento que acabou se tornando uma obsessão positiva na minha vida.


Rapidamente percebi o tesouro que tinha merecido da vida. Confesso que não tinha ainda dimensão do seu valor e de sua importância, mas minha intuição e minha sensibilidade me levavam a respeitar e a desejar aquela presença/referência em minha vida.

O rapaz magérrimo, tímido e encurvado, com a auto-estima literalmente na “lama” de sua origem ainda não compreendida social e intelectualmente, ganhou em tempo recorde, ares de “top model”.


Postura corrigida, deslocamento harmônico no eixo, graciosidade nos movimentos simples do cotidiano, fala pausada e reflexos de influência refinada na linguagem oral foram me tornando o “filho do caso de amor que Helenita teve com o movimento”. 

Lembro com carinho dos olhos brilhantes de alegria e orgulho quando lhe fiz essa afirmativa: “Helenita! Às vezes tenho a sensação de que sou seu filho. Um filho do caso de amor que você teve com o movimento”. Ali escutei uma de suas mais acertadas profecias: “Diógenes! Você dançará no próximo espetáculo do Grupo Profissional de Dança da UFRJ”. O que era quase impossível, já que nunca tinha feito Dança aos 21 anos e estava a apenas quase um ano no grupo de iniciação artística. Mas para minha surpresa, a profecia se realizou o mais rápido que eu imaginei e estreei em 1990 como bailarino “profissional” no Espetáculo “Imagens do Homem, Imagens da Terra” no Teatro Cacilda Becker dando inicio a minha trajetória artística profissional como bailarino do Grupo Dança da UFRJ.

Um comentário:

  1. "Todo mundo é capaz de se mexer, mas nem todo mundo é capaz de dançar”.

    Este dito deveria parafrasear todo trabalho artísitco contemporâneo em dança. A vitalidade filosófico-artistica-educacional de Helenita não pode se perder na inérica do fluxo excessivo e muitas vezes descartável de informações que tomam os mais variados meios de comunicação. Difundi-la com responsabilidade e propriedade de vivência é o princípio de qualquer bailarino que teve e tem a oportunidade de aprender, lecionar e saber-fazer pela fenomenotécnica tão explorada por esta Grande Dama da Dança Brasileira. Dama esta ainda tão pouco conhecida de uma esfera artísitca tomada pela vaidade excessiva e negligente da arte. Arte por Helenita é pele, não virtualidade.

    E em você Diógenes, no pouco e incipiente processo de convivência que tive e continuarei a ter, pude perceber o que tanto Helenita Pabst de Sá Earp dizia: Todo mundo é capaz de se mexer, mas nem todo mundo é capaz de dançar.

    Um forte abraço, seu Filho da Mãe Gentil!

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário. Ele é imprescindível para a dinamização desse espaço. Grato pela sua visita!

DOAÇÃO

A TEMPESTADE ESTÁ SOBRE NÓS: Você está assistindo a um filme com roteiro

  Às vezes você deve caminhar pela escuridão antes de ver a luz!  É somente no precipício [momento da destruição] que as pessoas encontrarão...