Toda às vezes que me vejo diante da “ignorância” me lembro o quanto sou ignorante e do quanto ainda tenho a aprender na vida. E então me vem uma passagem tragicômica e significativa da minha vida; que sempre faço questão de contar aos que me são queridos.
Gosto de vê-los rindo de mim… Suas risadas me fazem bem, me fazem lembrar que sou humano.
Quando eu tinha 17 anos passei para a Universidade.
O primeiro da família. Um dos primeiros da comunidade.
O ano era 1984; e só Deus sabe como alguém da minha origem conseguia essa façanha social.
Naquele então, agente passava para o primeiro ou para o segundo semestre do ano seguinte. E no segundo semestre de 1985, já com 18 anos, eu ingressaria na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A vida se abriria como um grande livro para mim. Mas o que fazer durante os seis meses anteriores?
Meu querido irmão mais velho, que já caminhava na frente com responsabilidade, conseguiu uma vaga para mim como contínuo da empresa em que trabalhava como contador no centro da cidade.
Um novo mundo se descortinava à minha frente.
O primeiro emprego. A cidade que impressionava aquele jovem cidadão que descobria o mundo. Tudo era novidade! Tudo era uma nova descoberta.
Pessoas, movimento, ritmo, uma nova dinâmica da vida.
Lembro como se fosse ontem.
Meu patrão que era um cidadão influente e conhecia pessoas influentes ia oferecer um “cocktail” na minha primeira sexta-feira como “officeboy” e encarregou o “boy” mais experiente de comprar gelo para o tal “cocktail”.
O coitado, se achando muito esperto, passou a sua obrigação ao jovem iniciante Diógenes e como já era quase final do expediente; deu no pé.
- Onde que eu compro gelo? Perguntei inocentemente.
- Na Praça XV. Respondeu o coitado, se achando esperto, antes de pegar o rumo de casa.
Diógenes, a mais nova aquisição da empresa, foi correndo à Praça XV comprar gelo.
Lembram da feira de peixes na praça XV?
Pois é… Foi lá que Diógenes encontrou o gelo. Uma barra de gelo de uns 50 litros que a inocente criatura enrolou em jornais; colocou nas costas e saiu pelo centro da cidade correndo para chegar antes que os convidados chegassem para o tal “cocktail” na firma.
Da Praça XV ao número 119 da Avenida Rio Branco; uma verdadeira via “crucis” na hora do “rush” foi vivenciada por aquele jovem e magrelo cidadão.
Enquanto a barra de gelo derretia, e o jornal já de nada servia, congelando minhas costas e minhas mãos; eu corria feito um louco ensandecido pelas ruas do Rio tentando desviar dos transeuntes para cumprir minha obrigação.
Quando encontrava um sinal fechado era uma loucura. Ninguém entendia nada! Aquele garoto maluco carregando uma barra de gelo “gigantesca” nas costas e que às vezes esbarrava em alguém que dava um pulo assustado!
No elevador lotado a cena era inacreditável! Eu já quase todo molhado com a barra de gelo nas costas e as pessoas esquivadas tentando se livrar do gelo derretendo, sem entender nada.
Jamais vou esquecer a cara da secretária/recepcionista da firma quando o elevador abriu e eu surgi com aquela barra de gelo nas costas.
- Garoto o que é isso? Perguntou a recepcionista surpresa.
- O gelo. Respondi inocentemente.
- Joga isso lá na privada antes que o seu Paulo César veja. Ele vai ficar louco. É gelo para colocar nos “drinks” garoto. Tem que ser em cubos pequenos.
Esclareceu a recepcionista atordoada.
- Eu quebro com a faca! Dei a solução imediatamente.
- Tá louco garoto? Vai. Vai. E chama o motorista do seu Paulo lá na cozinha pra ele ir correndo comprar gelo. Decretou a secretária.
Na segunda-feira quando voltamos ao trabalho pela manhã ainda tinha um pedaço da barra de gelo derretendo na privada do banheiro da cozinha. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Eu só escutei a voz assustadora do chefe ao chegar gritando:
- Manda essa “anta” desse boy ir na minha sala agora.
Como não tinha sido eu o encarregado da missão. O espertinho do outro boy que querendo dar uma de esperto me encarregou a tarefa que ela dele teve que se apresentar como a “anta” e ouvir os impropérios do patrão, enquanto que eu fiquei rindo, lá na cozinha, da lição que a vida deu naquele espertinho.
Meu irmão quase morreu de tanta vergonha e eu até hoje me divirto muito lembrando esse hilário episódio da minha adorável vida.
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