quarta-feira, 26 de agosto de 2009

SÓ FALTAVA ESSA!




O aniversário de 9 anos, completos no dia 26/07/2009, como educador da Rede Municipal de Ensino na comunidade onde nasci, cresci e tenho o prazer/privilégio de exercer a minha profissão; fechou um ciclo da minha experiência singular, enquanto "ator social" comprometido com a afirmação de minha identidade e de minha cidadania. 

Um ciclo iniciado sob o domínio do medo; quando forças retrógradas, apoiadas pelos sedutores e enganadores recursos da multimídia, empunhando a suposta bandeira da ação social e da solidariedade; impediam o salto sócio-cultural e artístico da comunidade da Maré eclipsando iniciativas e projetos comunitários realmente comprometidos com a afirmação ética e cidadã de sua identidade e com a afirmação da cidadania de seus moradores.

No ano 2000, quando as oportunistas aves de rapina, com o apoio do “Comunidade Solidária” do Governo FHC; faziam a festa com as problemáticas resultantes da pobreza e da miséria na Maré e em outras comunidades de baixa renda do nosso país ganhando prêmios da ação social do estabelesshiment, o Ciep Operário Vicente Mariano era uma ilha de esperança cercada de problemas por todos os lados, que resistia dignamente ao descaso das autoridades e às boas intenções das Ongs sob a direção "linha dura" da já lendária professora Walmyra Tavares que, mantendo a tradição disciplinar que fundamentou a formação de sua geração e de gerações anteriores com sucesso; conseguia, na medida do possível, fazer a diferença abraçando projetos e iniciativas de educadores e moradores que se auto-sustentavam, apesar da falta de pessoal ( educadores e funcionários), de equipamentos, recursos e principalmente, apesar das problemáticas que caracterizam o cotidiano da Maré e que não são novidades para nenhum segmento de nossa sociedade.

Ir trabalhar no Ciep Operário Vicente Mariano foi a alternativa que a vida me ofereceu para seguir dinamizando dignamente a minha inserção/atuação na comunidade. Lá encontrei essa louca que tirava leite de pedra e conseguia lotar uma quadra de pais para realizar uma reunião.
Graças a Deus! 
Pois essa louca conseguia oferecer aos educadores uma escola onde ainda era possível lecionar com dignidade. Pixação? Atrasos? Tempos vagos? Alunos sem uniforme? Não vi isso nesses 9 anos lá. Os problemas lá eram de outra índole. 
As levas anuais de alunos semi-analfabetos que a escola recebia do entorno no ensino básico, já que moradores sonhavam que seus filhos estudassem no Vicente Mariano; o poder subversivo do narcotráfico; as centenas de casos especiais de alunos que têm direito a educação especial, mas que pelo descaso das autoridades, não têm acesso às mesmas; e etc. e etc. e etc. eram os verdadeiros problemas para a direção e o corpo docente seguir mantendo a dignidade naquela ilha de esperança cercada de problemas por todos os lados.

Lá aprendi a lidar mais ainda com a escassez.
Escassez de condições, de recursos e de pessoal administrativo.
Mas também aprendi a lidar enriquecedoramente com a busca coletiva por soluções que viabilizassem o exercício pleno de nosso sacro ofício - lecionar.
Dois mil alunos completamente à margem da sociedade e unidos a ela por esse fio tênue - a Educação, um direito do cidadão; tentando exercer suas cidadanias em uma escola sem condições físicas para isso. Banheiros interditados! Salas superlotadas! Etc. e etc.

Mas aprendi a lidar também com a criatividade, a perseverança, o compromisso e força dos profissionais da educação que tive o privilégio de conhecer lá. Profissionais que mereciam respeito elevado à décima potência da sociedade por assumirem esse compromisso de levar a cidadania e a dignidade que corresponde por direito social aos moradores das áreas de risco, aqui no caso específico, a Maré. Mas que na verdade são desrespeitados e afrontados em sua inteligência crítica e paciência por posturas políticas desprezíveis e interesseiras de quem deveria se apropriar como gestor público das conquistas já alcançadas no difícil trabalho de construção da afirmação da cidadania na Maré em benefício do progresso coletivo e do bem comum.

Profissionais esses que, unidos à direção anterior, conseguiram durante os últimos anos, com acertos e desacertos, manter a dignidade do funcionamento da unidade escolar e que, hoje mergulhados na completa arbitrariedade de ações pouco claras para o corpo docente vindas da hierarquia administrativa da Secretaria Municipal de Educação; tentam controlar o caos estabelecido no já “complexo” cotidiano de mais de 2000 mil crianças e adolescentes que estudam no Ciep Operário Vicente Mariano após a intervenção na direção da escola. 
Uma intervenção promovida pela Secretaria de Educação nada transparente para o respeito que essa comunidade escolar e a própria comunidade da Maré merecem.
Se não fui claro, me aguardem, pois assim que eu tiver estômago para relatar toda essa nojeira da forma mais popular e compreensível possível, eu relatarei. Afinal de contas faz parte da minha história profissional ter vivido tamanho constrangimento como educador ao presenciar os lamentáveis episódios que presenciei e sigo presenciando na unidade escolar da comunidade em que nasci e onde leciono .
Vamos ver até quando!

2 comentários:

  1. Ainda não tive chance de me inteirar de toda a situação Didi, tenho trabalhado muito e com pouco tempo, inclusive para conversar com amigos. Adorei sua retórica e espero que se para o bem do CIEP (acho que estarei de volta, no ano que vem), conte comigo sempre! Big abraço!Antonio José

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  2. Meu prezado e admirado amigo, você está certo com todas essas afirmações; Tenho certeza que é o desabafo nosso também. Principalmente eu que convivi,e criei minhas filhas ,e vi meus sobrinhos serem educados ali. E, hoje vendo ingressarem na vida e, diga-se de passagem, com elógios Onde estão. Nâo acreditam que estudaram numa escola no bairro maré chamada vicente mariano e, conseguiram aprender o que é diplina escolar, que começava no portão da escola com um bom dia, boa tarde e, agora, abre-se as portas e entra quem quizer, mães que ainda não conhecem esta nova direção e, às vezes, devida a pouco instrução, são tratadas com irônia ou, agradinhos por aquelas saberem revendicar um pouco das coisas que acontecem na escola.

    Bem, agora a nova gestão visa a escola do amanhã que tem que funcionar em três anos. Fico agora pensando... será que seremos reconhecidas mediante educação disciplinar dos nossos filhos por esse tempo?

    Sabemos que não é preciso esperar à época de servir as forças armadas para se aprender o que é disciplina. Em uma área de risco onde eles estudam é preciso esclarecer que quando ingressarem na vida, adulta, não terão,com frenquencia, jogos como: toto, pig pong...como estão tendo na nona série. É preciso dizer, também, que não é culpa deles, pois não colocam professor e não deixam a Mônica professora de francês voltar, entende? Então brincam. Agora, se continuarem assim, o futuro poderá ser cortar grama no quartel....um futuro incerto. A vioência está em todo lugar, eles tem que se desviar desse caminho para terem um melhor futuro.

    Quanto á [diretora]Walmira, ja fez sua parte e com muitos elogios que ninguem vai coseguir apagar, nem com histórias inventadas ou contadas agora, porque sua história está gravada por gerações e, é contada por, até, quem não queria aceitar a verdade como: Pai,Mãe,alunos e, por aqueles que não acreditaram quando lhe deram esse cargo.

    Meu grande amigo, termino dizendo: "Para sempre diretora do operário, mesmo não estando lá, mas todos ainda chamam "brizolão" da walmira". Além disso lembram sempre da frase dela: "Mãe adote seu filho antes que alguém o adote".

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